A psicologia hoje tem muitos problemas e, consequentemente, eu enquanto estudante da área tenho ainda mais. Se por um lado me angustio de estar imaturo quanto à big picture desses problemas e suas possíveis soluções, por outro me alivio de saber que ela mesma – a ciência, ou quase, psicologia – também está imatura e que não é um problema só meu. E mais: a imaturidade não constitui, nesse caso, ilegitimidade de aplicação/investigação(1), mais justamente um motivo para realizá-la uma vez que o objeto é claramente real e sua lida urgente.
Superando [ou negligenciando por hora] a questão ética da aplicação técnica de uma imatura ciência, cogitemos sobre a dimensão mais interessante da questão: a teoria. Tanto quanto se queira aprofundar-se na etimologia dos termos “confusão” e “complicação” mais os consideraremos adequados a referirem-se ao estado de nossa novíssima ciência do objeto antiquérrimo, psicologia/psique. Não sem razão… Voltar os olhos do observador sobre si mesmo gera estranhos e interessantes problemas epistemológicos que, para além da vulgata científica, ou mesmo de sua profunda investigação, desafiam a mente, pois ao fazer da mesma objeto de si faz irromper paradoxos diversos ["por um espelho diante de outro não facilita ver o espelho"] e demais questões filosófico-científicas até então negligenciáveis, mas não mais.
Assim, sinto-me desafiado [e vacilante] em filosofando por teorias nunca d’antes levadas a sério para tentar dar conta desse estranhíssimo objeto – nós.
Verborragia à parte, principiemos o lancinante e tedioso trabalho de penetrar às estruturas mentais – desenhadas pela Natureza para esconderem-se do pensante, “a fim de”* não se tornar objeto, “a fim de”* não provocar o conflito que hora procuramos.
Um dos problemas mais sérios – pois ameaçam pragmaticamente/politicamente a própria investigação – é a maneira com que hoje ela se parece comportar, digamos, “arredia” e “magoada” com as demais ciências e com a filosofia em especial com a epistemologia e a lógica. Confesso que não me faltam gargalhadas quando ouço psicólogos falarem desses temas… E confesso que não me faltam lágrimas quando filósofos e cientistas de outras áreas me fazem lembrar os motivos porque a psicologia se magoou e tornou arredia.
Superando [ou negligenciando, novamente, por hora] a questão política da inserção da Psicologia no panteão das coisas sérias, retornemos a cogitar sobre a dimensão mais interessante da questão: a filosofia em si, não sua nefasta trama ontológico-política.
Voltemos às origens… Não reinventemos a roda, mas a redescubramos. As rodas, as engrenagens, os ossos, os nervos, os músculos… e o resultado simbólico disso tudo que supera em muito a possibilidade de dedução biológica ou ainda meramente comportamental.
Uma analogia que funciona bem para estabelecer esse conceito de inviabilidade(2) de dedução simbólica a partir, puramente, da materialidade [sem que se advogue a ridícula possibilidade de existencia de uma alma sobrenatural] é a de um computador. O computador é, obviamente, inteiramente físico, porém… O que aparece no monitor e o que fazemos com o mouse e teclado, poderíamos chamar de ‘simbólico’, não?
Agora imagine que você vai fazer um tutrial sobre seu editor de texto predileto. Você será bem sucedido se seu tutorial permitir que, tão simplesmente quanto possível, o usuário possa reconhecer o programa quando o vir, entenda como abrí-lo, como ele funciona, as maneiras de interagir com ele e os resultados que ele pode produzir a depender da maneira que se lide com ele. Para isso, você tem duas alternativas principais:
A – Criar um documento com fotos, esquemas, tópicos e subtópicos, um passo-a-passo para cada ação principal etc.
B – Descever como um computador funciona desde o hardware e todas as camadas simbólicas (firmware, assembly, kernel, sistema operacional) até o software em si. Descrever o que acontece ao clicar numa tecla (como o sinal é acionado eletricamente, como é recebido e traduzido para um número relativo a uma tabela de caracteres e capturado em seu editor) ao mover e clicar com o mouse, como tudo isso é traduzido para uma matriz simbólica e exposto e atualizado na tela etc etc etc.
Se a idéia era usar o programa, me parece que a alternativa A é mais bem-sucedida. Ok, aceitamos que a psicologia não é um subcampo da biologia ou medicina, mas se ela for exatamente como a alternativa A, talvez possamos ajudar as pessoas, mas de forma superficial, creio. Seria como um curso técnico de psicologia, o que temo muito que venha a ocorrer… Então, proponho uma alternativa C (intermediária) na qual tanto aprendamos a lidar com a pragmática da psique quanto entender o bastante sobre o que está acontecendo mais profundamente.
Outro problema sério que enfrentamos é a ética. Ética para além do plano normativo, diria metaética. Dentre as diversas questões podemos assinalar:
[o texto está ainda um tanto jogado, mas pretendo tratá-lo mais carinhosamente principalmente a partir desse ponto em breve]
Meta-éticas
A – Até que ponto temos o direito de conduzir o paciente ao que é bom para ele?
A1 – Como sabemos o que é bom para ele?
A2 – Como sabemos que sabemos o que é bom para ele? E isso, como sabemos? Ad infinitum…
B – Como sabemos como conduzir o paciente ao que é bom para ele?
B1 – Como sabemos que é a maneira mais adequada?
B2 – Como sabemos que sabemos qual a maneira adequada? E isso, como sabemos? Ad infinitum…
C – Como sabemos se a necessidade de intervenção é legítima?
D – Como sabemos se nossa ação enquanto psicólogos é adequada à necessidade?
Epistemológicas
A – Como definir um algorítimo de inferência da situação atual com relação a um modelo?
B – Como distinguimos um modelo da dinâmica da psique válido de um inválido?
C – Como distinguimos um modelo da dinâmica da psique verdadeiro de um falso?
D – Como distinguimos um modelo da dinâmica da psique útil de um trivial?
E – Como dirigimos a pesquisa na psicologia?
F – Como definimos o objeto da psicologia?
G – Como formalizamos (definimos, clara, precisa e francamente) e testamos o saber na psicologia?
H – Como formalizamos (definimos, clara, precisa e francamente) testamos o saber em geral?
I – Como fornalizamos e testamos?
J – Por que formalizar e testar?
K – O que é a formalização e teste?
L – Como saber e ter certeza?
M – O que é o saber e a certeza?
Pragmáticas
A – Como aplicar corretamente um algorítimo de inferência da situação atual com relação a um modelo?
C – Como definir e executar um plano de ação a partir da situação atual do paciente?
Multi-disciplinares
A – Qual o valor das atuais abordagens teóricas da psicologia?
B – Qual a contribuição de cada abordagem teórica?
C – Qual o panorama de atuação atual da psicologia hoje e como poderia ser melhor?
D – Como a Psicologia pode se inserir e atuar no contexto político-econômico-social?
E – Como a psicologia pode usufruir dos demais saberes?
F – Como progredir na pesquisa em psicologia?
G – Qual a relação atual e como poderia poderia melhorar a relação entre psicologia e os demais saberes?
Se você for estudante de psicologia e nunca se houver perguntado essas coisas, espero que esteja sentindo um frio na espinha.
Acredito que a solução de um problema é, em geral, um passo trivial após sua boa análise. Assim, a maior parte do tempo pretendo nesse blog analisar cada problema escrupulosamente – e outros – para muitos dos quais ainda não há uma boa solução. Se você curtir minha verborragia arrogante e minhas nerdices em geral, sinta-se convidado a ler vez por outra meu blog.
1 – Uma boa parte da investigação, no nosso caso, ocorre na própria intervenção.
2 – Inviabilidade dos recursos, no sentido de ser mais fácil e mesmo seguro por outra via.
*A lida da Natureza com informações presentes, assim como nós fazemos, é intrigante o bastante para parecer calcular à frente, sendo ou não fato. Seja como for, funciona pensar por hora como se fosse até que se irrompa o conflito.