Às meninas aladas
Morou por tanto tempo dentro daquela flor que já não cria existir o lado de fora. Não havia um mundo, não havia outras fadas ou zangões, nem sequer havia outras flores; não no seu coração que se tornara pequenino, menor do que sua flor-morada.
Três alternativas: o nada, o absurdo e o tempo.
O nada é apenas a exclusão das demais: fuga abstrata para dentro de si, ou do vazio (os excessos da vida que transbordam pela figura da morte). O tempo, para ela, esterilizou-se… com o passar. Já não trazia novidade. Portanto, as duas opções se tornaram igualmente nulas. Daí o absurdo surgiu como a escolha mais lógica, ou a única. O absurdo aparece como a novidade que não pode ser reduzida à rearticulação das velhas coisas.
Se foi desabrochando na pequena fada a vontade de entrar no lado de fora. Até que, vacilante, rompeu por dentre as pétalas e encontrou as coisas reais: não eram nem um sonho nem um nada, mas interessantes.
Na verdade o sonho e o nada estavam nela – os podia criar quando quisesse -, mas as coisas e a gente estavam no mundo, bem como as novas possibilidades de anular ou sonhar.
Voou para procurar a si mesma em seu lago-natal – Lago dos Sátiros – e lá pôde encontrar o que buscava; ou retomar o que perdera; ou alcançar o novo: na imagem refletida. O mundo é o laço entre o nada e o sonho, entre esses meus dois lados – cogitou admirando-se.
Não é estranho? Porque preciso realizar algo para conquistar minha própria aprovação? …e preciso ir a algum lugar para recobrar minha própria identidade?
É absurdo… mas é real. Preciso de um espelho para me ver e de um mundo para viver. Não pode a gente fazer de si o próprio mundo – ou ver no mundo a pura continuação de si -, pois se recai sempre no calabouço da existência, na autofagia evolutiva, na armadilha de Darwin e na necessidade da escolha que no meu caso, se acaba trancando por dentro. Só se pode transcender de algo, não do vazio, não de si, apenas. Pois o outro não é outra modalidade do mesmo. Se ambos: eu e o mundo, algo e o nada, o mundo e o nada fossem o mesmo, haveria ainda do que se esconder?
Mas a realidade não é estática como esse lago sereno, como revelação do que há para além do sujeito que observa e independentemente dele. A realidade (interessante) nasce da conjunção entre mim (e a gente) e o mundo. Como temeria encontrar meus pesadelos no mundo se eles já não estivessem em mim de algum modo? O mesmo se diz dos sonhos… Eu tenho as figuras desbotadas, mas a realidade as preenche com cores revitalizantes. Ela tem essa força que me escapa, a de arbitrar sem motivo. Já eu estou presa no sentido, não consigo escolher como a verdade se dá, como a realidade de doa, mas sim como desfruto o que vem.

O absurdo é: a coincidência entre o que é e o que não deveria ser; o terrível espetáculo do inesperado; o convite para o jogo compulsório do ser, sempre p’ra valer.
Então lembrou-se porque fora esconder-se na flor quando lhe ardeu o ciúme das ninfas e sátiros. Eles não voam, mas parecem completos, e parecem bem. O que é isso, o ciúme? Seria penetrar à felicidade alheia sem querer? Ou à aparência da felicidade alheia? Afinal, podem, eles, ser felizes sem mim? Se alguém for feliz sem mim, significa que falhei? Sentir isso é pior do que trancar-se novamente para sempre. Na verdade, sentir isso é justamente trancar-se para sempre… do lado de fora de si. Há saída?
Para todo lado, menos na direção que olho fixamente… De fato, a decisão de romper e sair permanece: jamais deixei a flor. Nesse instante, ela acorda e vê que não saiu mesmo. As pétalas iluminadas indicam o nascer do novo dia. Mas ela teme o mundo – ou teme jamais caber nele – e fica lá para sempre.
E é por isso que algumas flores nunca desabrocham, porque alguma fada esconde-se lá por ciúme em vez de voar.
- Daniel Mazza

