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Jair Bolsonaro e Preta Gil

Esse tema é tão quente que não posso deixar passar sem publicar minhas considerações.

Seja qual for o motivo, opinião ou confusão, Bolsonaro foi extremamente infeliz na resposta à Preta Gil no programa CQC (quadro PQS – O Povo Quer Saber). Pois, mesmo no caso de confusão, houve uma associação mental entre Preta Gil, homossexualidade, promiscuidade e o “mal” que foi, no mínimo, estranha.

A pergunta foi muito clara: “Se o seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?“. Preta Gil ainda foi feliz em usar o termo “negra” em vez de “preta” para não parecer uma auto-referência. E a resposta, como sabemos, foi: “Não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Não corro esse risco porque os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu“.

Bolsonaro alega que não entendeu a pergunta, achou que se referia à homossexualidade. Isso faz algum sentido, porque a resposta foi muito dissonante da anterior (de que ele não se importava se tinha tido chefes brancos ou negros), mas ainda assim o erro foi tão gritante – e eu quero crer que não houve edição maliciosa pelo CQC – que aponta para associações mentais comprometidas, características de raciocínios esquivos e pouco francos sobre um determinado tema (o que não implica que raciocine mal sobre outros temas). Ele fez a merda, mereceu o processo, que se defenda sozinho, não quero aqui tentar definir qual foi a intenção do que ele falou.

Meu post é sobre conceitos e apanha esse caso apenas como ilustração e ponto de partida da discussão de um problema mais amplo: a intolerância às diferenças.

“Começando do começo”

Primeiro, vamos recapitular dois conceitos: tolerância e discriminação.

  • Tolerar (dicio, michaelis) não é gostar, preferir ou entender, mas está mais ligado a respeitar ou aceitar. A tolerência, portanto pode ser boa ou ruim. A tolerância à corrupção política, por exemplo, é ruim. A tolerância a uma manifestação artística que não lhe apraz, é boa.
  • Discriminar (dicio, michaelis) é diferenciar, distinguir. A discriminação, portanto, pode ser boa ou ruim. Discriminar uma raça quanto aos direitos e deveres civis, por exemplo me parece, na maioria das vezes, ruim tanto em prejudicar (Apartheid) quanto para privilegiar (cota racial). Mas há casos especiais como os direitos trabalhistas da gestante (discriminação por gênero) que são bons. E às vezes são bons também noutros âmbitos como categorias esportivas (discriminam por altura e peso), banheiros separados (por gênero), requisitos para dirigir automóvel (idade, saúde e habilidade) e para, por exemplo o papel numa filmagem que só pode ser feito por um negro/índio/japa/etc (discriminação por raça).

Essas palavras ganharam sentido pejorativo ou limitado no cotidiano uso, como se uma fosse sempre boa e a outra sempre ruim. É importante que se esclareça isso, porque elas recursivamente aparecem na boca de demagogos.

Cotas raciais

Há muitos exemplos de intolerância e discriminação ruins de consequências drásticas. As cota racial para o ingresso em universidades, por exemplo, pode deixar de fora um estudante branco pobre, dando sua vaga para um estudante negro pobre, ainda que eles estejam em igualdade de condições sócioeconômicas e o estudante branco tenha uma nota maior no vestibular. Deve ser difícil explicar para esse estudante que isso é justo por conta do que brancos (que já morreram há muito) fizeram a negros (já falecidos há tempos) em nossa história, mesmo que ele não esteja hoje favorecido em relação ao candidato negro. Não seria isso a instauração de um motivo legítimo para que ele, em revanche, se tornasse tão racista quanto a lei que o prejudicou? É uma pena que haja quem defenda esse mau exemplo de discriminação racial.

Preferências pessoais

Outro ponto polêmico é no que diz respeito a gostos pessoais… Eu já namorei meninas de raças diferentes e a que namorei por mais anos até hoje foi uma menina negra. Mas eu posso entender que as pessoas tem preferências diferentes e não há problema nisso. Há quem não goste de ruivas, morenas, japas, índias, louras ou negras. Não me concedo o direito impor meus gostos a outrem. Mas é claro que isso se torna um problema quando estamos num sistema político-econômico no qual a subjetividade de uns define as condições objetivas da qualidade de vida de outros… Mas esse é um problema que escapa às possibilidades individuais de ação, restando soluções conjunturais, circunstanciais.

Humor

Sobre o mundo humorístico… Sou muito flexível quanto ao tema, mas cuidadoso quanto à circunstância de enunciação (uma parte do significado do ato de fala depende disso). Por exemplo, eu e meus amigos nerds fazemos piadas sobre nerds. Mas acho que quando alguém de fora vai fazer uma piada, tem que ter a sensibilidade se fazê-lo sem que pareça mais do que uma piada. Mas se eu for num show de humor, obviamente não posso esperar que não se faça piadas sobre isso (mas, preferencialmente, sem referências individuais). Então, se por um lado não considero que negros sejam café-com-leite no mundo do humor (até porque negros fazem piadas sobre negros), entendo que devido ao contexto histórico, se deve fazê-lo com cautela, principalmente para um público amplo.

Racismo “por tabela”

Às vezes, a carga racista de um evento ou coisa qualquer está na possibilidade de suporte para um racismo verdadeiro utilizando-se daquele evento ou coisa inicialmente inocente. Um grande exemplo foi um jogo americano, desses de matar zumbis, onde o personagem em primeira pessoa era branco e havia uma fase numa aldeia africana… Ainda que o jogo tenha sido feito sem essa intenção (não sei dizer), deveria ter-se apercebido da possibilidade de uso por garotinhos racistas americanos nesse outro sentido (lá o racismo ainda é forte). Por analogia, uma piada, um jogo, uma série de TV etc tem de cuidar não apenas para não ser racista, mas também para não gerar ferramentas para o racismo.

Em suma…

Voltando ao caso em questão, me sinto triste por um cara que defende coisas que acho importantes, até contra o racismo no caso das cotas, tenha caído nessa infeliz situação (por erro próprio). Espero que ele se responsabilize por isso, e se desculpe por seu erro (confusão ou não), até para que isso não manche por “osmose sócio-cultural” as ideias importantes que ele defendia. Eu não sou o tipo do cara que aproveita a polêmica para ferrar alguém, estou procurando fazer a mesma análise que faria se a coisa não estivesse estourando na mídia e espero ter sido bem-sucedido num juízo ponderado. Mas confesso que fiquei decepcionado e gostaria que ele aproveitasse para rever suas concepções erradas sobre homossexualidade e outros temas, nos quais eu mesmo afirmo que ele peca.

O vídeo de Rodrigo Constantino está maravilhoso, confiram:

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